O colégio anda consumindo até meus ossos. Mas aqui vai algo para demonstrar que ainda estou viva e escrevo por aqui.
Casmurro
Um homem passa solitário pelas calçadas do centro da cidade. Leva um chapéu na cabeça e o peso da idade nas costas. Mas, ao contrário da maioria dos velhinhos simpáticos e bem arrumados que via como figuras diferentes por essa cidade antiga, aquele andava de cabeça baixa, em um silêncio externo e uma frieza nos olhos que só faziam seu mundo particular ser ainda mais particular.
Lembrei-me de Dom Casmurro. Esperto quando moço, casou-se com um amor de infância e gastou suas horas contando sobre seus anos dourados. E então, consumido por um ciúmes nada menos que exagerado, nada mais que humano, passa de só sorrisos para um senhor calado, casmurro.
Então, fugindo de minhas reflexões, olhava aquele senhor com certa curiosidade. Era natural de minha mente inquieta imaginar uma história por trás de cada olhar, mas aquela figura simplesmente me remetia o vazio. Não que não houvesse nenhum motivo para aquela soturnidade; ele se fechava tanto em uma expressão dura que não era possível enxergar além do chapéu Fedora.
Quando dei-me conta de que o senhor olhava para mim, corei. Seu olhar fazia força para o meu desviar, e embora essa vontade fosse grande, resolvi continuar com meu foco de visão. Analisava suas vestes, suas mãos enrugadas, até novamente estar nos olhos que me encaravam. E para meu espanto, eram os mesmos olhos que eu encarava todos os dias no espelho.
É claro que os meus não possuíam uma pele flácida nas pálpebras e nem tantas rugas, mas já tinha pés de galinha quando sorria, e uma ruga de preocupação na testa que nos olhos que admirava agora, estavam bem acentuadas. Devo ter observado com algum ar de indagação, mas o senhor se viu, nada demonstrou. Olhou para mim e através de mim, como se nada fosse impenetrável ao seu olhar.
Mais uns minutos, e um ônibus passou. O senhor se foi e deixou para trás meus pensamentos.
Os olhos dos desconhecidos são o reflexo de nossa alma, e neles achamos as nossas próprias inquietudes,
os silenciosos mistérios. E com tantos pensamentos casmurros por aí, só não encontro as Capitus de seus olhares.
Luisa