Sonhos de estrada
No mínimo, era uma menina que devia despertar curiosidade em
olhos alheios. Com uma língua ferina mas mente sensível, tornava todas suas
ideias em um líquido concentrado, que poupava suas palavras sem apagar sua
marca. Não se incomodava em se passar por ingênua, as pessoas se tornavam
interessantes se despidas de sua habitual armadura por não temerem a garota.
De frágil possuía apenas o corpo e o tom de voz baixo. Sua
pele enrubescia com certa facilidade, mas contornava situações constrangedoras
com uma facilidade ainda maior.
Enquanto encostava o rosto no vidro de seu velho carro e
ouvia o ronronar do motor, sua mente vagava incerta. Corria os olhos pela grama
verde assim como imaginava seus pés correndo, apenas procurando algo para se
distrair. Um casal de idosos, pessoas no ponto de ônibus e muitos carros. Tanta
gente não presente. O que levava aqueles tantos corpos vazios em estradas
apinhadas de rodas à um mesmo lugar? Imaginava a garota se era diferente dos
tantos que a cercavam. A ideia de todos seguirem o mesmo caminho era
desoladora.
Se alguém ao menos parasse em uma janela para vê-la com
olhos que não fossem os habituais de vidro, também se perguntaria o quê uma
garota daquela fazia trilhando as suas mesmas estradas.
E a parte adormecida da garota, aquela parte dos clichês
sentimentais, angustiada e trancafiada em uma prisão temporária do corpo
molemente jogado no banco de trás do carro, gritava para que ela fosse apenas
mais um estereótipo de adolescente. Aquela parte chata era apenas seus
sentimentos chatos, que caso acordassem, acabariam com a alegria da garota de
inventar histórias curiosas sobre sua visão, mas de olhos fechados.
Luisa