Um coração cheio de vazios
Sua mochila estava jogada perto do pé da cama. As folhas de seus antigos textos amassadas e espalhadas pelo assoalho de madeira, assim como seus antigos sentimentos. A ponta de seus pés tocava o gelado do chão e sua pele se arrepiava. Tinha vontade de gritar, mas já bastava o som dos trovões do lado de fora de seu quarto.
Fechou os olhos e por um momento morreu dentro de si. Emergiu diante de seus olhos várias vezes a mesma cena. Entrou mais uma vez em seu interior abalado procurando respostas, entretanto só encontrava problemas.
Algumas vezes é realmente difícil prestar atenção no que há de bom ao seu redor.
Ela arrastou a cadeira de rodinhas para perto da janela. Afastou um pouco a cortina e espiou lá fora. Havia metade de um dente de leão em seu quintal, a chuva arrancara o resto dele. Pensou em como aquilo era triste e em como a vida era cruel.
Realmente, qualquer coisa era motivo de reclamações dentro de seu interior. E assim, teve ódio de si mesma. Ódio por ter se iludido, por ter cultivado esperanças que, diferente do dente de leão, não morreram nem nas maiores tempestades. Ódio de ter sido tão ingênua. Ódio de ter acreditado em palavras vazias. E como odiava palavras vazias! Seu coração apertou ao lembrar-se da época com palavras intensas e completas e não as metades esquecidas que restaram.
Deu-se por vencida. Tinha fracassado mais uma vez, mesmo tendo prometido a si mesma. Esticou-se ali no chão, em meio à sujeira e a memória; abraçara as lágrimas como se fossem a única coisa a ter sobrevivido de toda a história que vivera.