Fraterno esquecimento
Sonhei que era um diamante. Desejei com todas as forças que fosse verdade. Pelo menos assim alguém me desejaria, as pessoas brigariam para estar comigo e eu teria algum valor.
Sempre fui carente, chorosa, sozinha. Carinhosa demais. Apegada demais, às pessoas, aos lugares que já estive, aos objetos, aos momentos passados, aos sentimentos esquecidos. Sempre com um abraço saltitando dos meus braços, agarrada ao mundo. O medo de morrer. O medo de ser deixada para trás, nunca mais ninguém se lembrar de mim.
E ai eu penso, se fosse bem menor, pequenina, brilhante, extremamente dura. Se eu fosse inquebrável, as pessoas gostariam de mim. Gostariam de me ver em suas jóias, em seus cofres, escondidos do mundo, porque seria só delas e de mais ninguém. Teriam medo de me perder.
Teria outras vantagens também. Eu não teria tudo isso dentro de mim. Essas carcaças que carrego, nem as lágrimas ou mesmo os curativos manchados de um sangue velho.
Mas sou apenas uma menina. Uma garotinha frágil, sem brilho, fácil de quebrar e que ninguém tem medo que vá embora. A única coisa que tenho semelhante com uma pedrinha de diamante é o tamanho.
Uma lágrima salgada correu por meu rosto como todas as manhãs, ao imaginar mundos inexistentes. E então dormi de novo. E tive novos sonhos e desejos.