Tem um tempo, mas ainda me deixa meio inspirada e com uns sentimentos loucos quando lembro da Jessie...
Walking in the air - Tarja, porque eu estava ouvindo quando resolvi postar.
Firefly
Passei com meu olhar pela janela, avistei lá em baixo uma senhora tendo sua bolsa puxada por um rapaz. E entre aquela incessante tosse que me acompanhava o tempo todo dei uma risada. Voltei a olhar para o quarto. As cortinas azuis claro já estavam ficando emboloradas, as paredes brancas estavam tomando uma cor negra, para todos os lados havia pó e o odor do meu corpo se decompondo naquele quarto era insuportável. E vendo tudo isso, ri com mais vontade. Lembrei por mais uma vez da minha maravilhosa jornada miserável.
Todas as lembranças mantinham-se vivas em minha mente, saltitavam, latejavam. E uma delas valia à pena libertar para que se uni-se a mim naquele lugar, sabendo que aquela seria uma das últimas vezes que teria a honra de pensar em algo.
Cheguei a conseguir ouvir os suspiros dela. Eu estava sentado no ponto de ônibus a observar os pombos quando ela desceu com uma mala gigantesca e saiu arrastando-a.
– Jessie! – Gritou a velha jornaleira daquela minúscula cidade.
A menina com uma blusa vermelha enorme olhou para trás, deu um sorriso tímido quando a mulher acenou e depois seguiu descendo a rua, sumindo ao virar em alguma esquina sem nem ao menos notar que eu a seguia com os olhos. Ouvir seus suspiros havia me deixado instigado a ouvir seus gritos de desespero.
Lá estava o dia sucessor e novamente eu me coloquei sentado no ponto de ônibus. Esperanças de encontrar Jessie por ai. Um novo habitante perdido, alvo perfeito, não?
Horas se passaram, mas nenhum ser vivo que se parecesse com ela passou por aquela praça. Levantei-me e caminhei pela cidade, retornando apenas no fim do dia para lá. Caminhei até a banca e comecei a folhear todo papel que encontrei. A velha ficou me observando sem dizer nada.
– Dona Anita, aqui está a pasta que te falei pela manhã. – Dizia uma voz doce.
Pelo canto do olho vi o rosto delicado. Ela voltara. E novamente usava um blusão vermelho grande demais para o seu tamanho.
– Ah, sim, querida. – E assim abriu a pasta. – Lindos, querida, lindos.
De soslaio notei que o interior da pasta era preenchido por diversos desenhos. Isso deixava as coisas interessantes. Desviei o olhar quando Jessie pareceu perceber algo. Peguei uma revista qualquer e levei até a velha Anita. Tirei uma nota do bolso e deixei em cima de uma pilha de livros grossos.
Ao lado tinha um velho banco de madeira apodrecendo e ali mesmo me sentei para ouvir as duas conversarem. O que a velhinha dizia era tão baixo que não se podia escutar.
– Ah, eu vim porque as coisas não estavam fáceis lá na cidade grande. – E uma pausa enquanto a velha deveria estar dizendo algo. – Não, problema algum. Eu já tenho lugar para ficar e trabalho... Bom, logo encontrarei algum.
A conversa não se estendeu muito depois disso, e a garota mais uma vez foi embora. Mas agora, sem perca de tempo, me coloquei a segui-la enquanto escurecia.
Não muitos quarteirões depois ela entrou em um pequeno prédio e só mantive proximidade até ouvir qual era o seu andar, me colocando no momento seguinte na calçada do outro lado da rua.
Segundo andar. Posso ver as luzes serem acesas por entre as frestas da persiana. Ouviam-se passos no assoalho podre de madeira até o barulho do virar de chaves na porta do banheiro. A janelinha redonda iluminou-se e então começou a ficar embaçada pelo vapor da água quente.
Algum tempo depois o vapor começou a se dissipar e pude ver seu vulto de costas. Seus cabelos negros estavam agora molhados. Passou a mão no espelho para poder se ver e sem perceber, me deixando ver também. E só houve mais um segundo antes que ela juntasse todo o cabelo em uma das mãos e passasse a tesoura. Os fios caíram no chão e eu pude ver um leve alivio em seu rosto.
E no dia seguinte fiquei novamente sentado no banco podre esperando-a. Vi quando ela estava chegando perto, passaria na minha frente antes da velha poder notar sua presença. Deu alguns passos com seu andar costumeiro, as mãos se aquecendo nos bolsos de outra blusa vermelha qualquer, até o passo que lhe deixou de costas para mim. Em um meio movimento passei um dos braços pelo seu pescoço e tampei sua boca com a outra mão. Mas ela nem sequer tentou gritar ou fez força para se livrar de meus braços.
Logo estávamos em minha casa. Joguei-a no carpete imundo da sala e ali ela ficou caída sem dizer uma palavra.
– Não vai tentar sair correndo? Ou começar a chorar? Nem ao menos tentar gritar por socorro? – Indaguei.
Fez que não com a cabeça.
– Qual o seu problema? Isso é um seqüestro menina! E até você conseguir algum resgate ficará aqui comigo.
– Resgate?
– É, sabe, aquela coisa de darem dinheiro pra que eu liberte você. – Respondi, mesmo achando que ela estava debochando da minha cara.
– Sei, eu sei. Mas quem vai pagar você?
– Sua família, seus amigos, eu sei lá, qualquer pessoa. Sua vizinha chata, seu ex namorado abelhudo, seu padrasto. Mas arranja alguém.
– Não. – Retrucou.
– Não? Como não?
– Não tem ninguém.
– Ah, vai fazer jogo duro então? Ta bom, você vai ficar aqui e fará tudo aquilo que eu mandar. – Disse então, sem obter nenhum desespero da parte dela.
Com isso ela foi trancada em um quarto tão vazio quanto minha alma. E lá ficou, sem higiene alguma, comendo restos, quase não dormindo. A janela trancafiada não deixava ter luz alguma tirando a lâmpada que ficava pendurada no teto por um fio quase estourando, além de piscar sem parar.
Jessie sofria maus tratos todos os dias, mas nunca gritava. Eu a obrigava a arrumar a casa, me dar comida na boca, e tantas outras barbaridades. Mas suas pernas estavam sempre amarradas com uma corda, uma na outra. Depois de fazer o que eu mandasse ela passava o resto do tempo trancafiada no cômodo piscante.
E assim se seguiu por mais ou menos um mês. Sua face ficava cada vez mais magra e com aspecto de doente. Seus olhos fundos, sua boca sem cor. Minha maldade estava sendo alimentada pela vontade de ter seus gritos ecoando por todo lado, até eu ter uma última ideia enquanto ia dormir.
Mas não peguei no sono. Ouvi a porta do outro quarto se abrir. Ela estava fugindo. Sai correndo e não a encontrei em parte alguma. Certamente ela iria me entregar e eu teria que fugir para alguma outra cidade. Que burro que havia sido, como esqueci de colocar o cadeado na porta? Não importava mais. Caminhei pelo corredor. A porta de seu quarto estava fechada. Resolvi abrir, mesmo não havendo esperanças. E para minha surpresa ela estava lá.
– Eu ouvi a porta. –Falei, mesmo sabendo que era uma coisa idiota a ser dita.
– Você não trancou. – Explicou ela.
– Você tentou fugir. – Retruquei.
– Não. Eu só estou com fome.
Peguei seu braço magro e a puxei para outro quarto. Parecia que eu a quebraria a qualquer momento, seu corpo já não resistiria muito mais. No centro do quarto tinha uma escrivaninha e um banquinho. Sentada lá ela me olhou com sua íris quase sem cor esperando o que eu tinha a dizer.
Em cima da mesa tinha um lápis e um papel.
– Me desenha. – Ordenei.
– Ta.
– Nu. – Expliquei, mas ela não mudou muito sua expressão e apenas esperou que eu retirasse minhas vestes.
Começou os traços e não parou até avistar um vagalume do lado de fora da janela e dar um meio sorriso.
– Desenha logo! – Gritei. – O que está olhando afinal?
– Humanos são como vagalumes. Todos têm uma pequena luz. Mas um dia ela se apagará e todo seu brilho será esquecido. – Disse com dificuldade. Parecia que não conseguiria mais se mover.
E durante aquela noite ela se foi. Lembro de ter entrado no quarto e ver seu corpo caído no chão, com as pernas amarradas como de costume. Mas dessa vez não havia alma alguma ali.
Segurava em seus braços um caderno marrom, capa grossa velha, sem detalhes. E dentro dele seu universo estava escrito. Pude notar que Jessie já não estava mais viva há bastante tempo. Não tinha amigos, não tinha ninguém. Talvez seu espirito já a tivesse deixado antes de seu corpo perder as ultimas forças.
E aquela banca, naquela praça esquecida... Nunca mais se abriu.
E assim observei quando as enfermeiras entraram em meu quarto gritando, desesperadas. Depois de tantos anos, já tão velho, eu iria encontrar Jessie novamente.