Daqueles contos que simplesmente surgem...
Dor petulante
Os dedos entrelaçados. Os passos de uma acompanhando os da outra. Devagar. Cautelosos. Doloridos. Os fios de ouro da mais nova estavam laçados em um coque frouxo como seu coração. A mais velha segurava as lágrimas, simplesmente pelo orgulho de ser mais velha. A respiração das duas estavam unificadas, apesar de descompassadas. Procuravam o cheiro característico, entretanto sabiam que ele já estaria quase totalmente apagado. Mas não seria esquecido:
"- Mamãe, por que você e o papai nunca tiram essas coisinhas da boca? - perguntava a mais velha, na época ainda filha única, todos os dias.
A mãe tirava o cigarro da boca, mandava a fumaça pela janela e suspirava."
"Anos mais tarde, a mais nova, já com 16, reclamava.
' - Ô mãe, para de deixar esse cheiro no meu quarto, credo!'
' - Ô mãe, abre a janela desse carro, eu não aguento mais esse cheiro!'
' - Ô mãe!
- Já apaguei, querida. - E a filha tossia por conta da fumaça."
"A de 27 e a de 24. Paradas em frente à pequena casa vermelha com cheiro de cigarro. Desciam do carro e iam correndo encontrar o conhecido abraço recheado de ternura. Já não reclamavam mais, apesar do incômodo. O sentimento de voltar ao lar era bom."
Agora, as duas não querem entrar na casinha vermelha. Não correm. Seguram-se. Esperam engasgar com o cheiro costumeiro de cigarro. Mas não acontece. As lágrimas da de 32 já escorriam há algum tempo, escorregavam, contornavam as bochechas rosadas, uniam-se no queixo, pingavam. O rosto molhado. Os soluços delas entalados nas gargantas. Sufocando. A mais velha não aguentou muito mais tempo. Logo, os dois rostos de porcelana estavam molhados e pingando. Quando finalmente chegam à portinhola da casa, a força da mais velha pra virar a chave teve de ser grande. O barulho do molho de chaves chocando-se contra si mesmo faz uma sintonia quebrada com o som dos soluços tímidos. Finalmente engasgaram. Porém não com a fumaça do cigarro, mas com o pó acumulado em uma casa já não mais habitada. A mais velha tocou as paredes em que a tinta já descascava. A mais nova sentada junto à sujeira observou o sofá em que tantas vezes se reuniu com a família. Horas depois, as duas carregavam caixas e caixas de papelão. Dentro delas, a nostalgia que não cabia no peito.